Caso de Polícia

Adilsinho, contraventor apontado como chefe da máfia do cigarro, é preso pela PF e Polícia Civil do Rio

Apesar de ter iniciado as atividades no Rio, Adilsinho já expandiu sua atuação para cerca de dez estados do Brasil

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O bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, foi preso na manhã desta quinta-feira durante operação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco/RJ), com atuação da Polícia Federal e da Polícia Civil. Ele foi capturado em uma residência em Cabo Frio, na Região dos Lagos, após trabalho de inteligência. Adilsinho é alvo de investigações por diversos crimes no Rio e em outros estados e estava foragido. Na casa onde ele se escondia, também foi preso um policial militar que, segundo informações preliminares, integrava a equipe de segurança do contraventor. A ação contou com o apoio do Serviço Aeropolicial e do Ministério Público Federal (MPF).

A operação para prender o bicheiro contou com monitoramento por drones. Durante a manhã, os equipamentos flagraram Adilsinho e o segurança dele fazendo exercícios físicos. As imagens mostram o momento em que o contraventor passa correndo próximo à piscina da casa de luxo onde estava escondido. Minutos depois, a câmera registrou a entrada da polícia no imóvel e a rendição do criminoso. A captura ocorreu por volta das 9h30.

O monitoramento também foi essencial para a polícia obter autorização para entrar no imóvel. Na quarta-feira, a Justiça havia negado o mandado de busca e apreensão para a residência. Após os investigadores utilizarem o drone para registrar imagens de Adilsinho no local e comprovar que ele estava, de fato, na casa, o mandado foi autorizado e a prisão pôde ser efetuada.

O contraventor estava há pelo menos uma semana na mansão onde foi preso após ter passado o Carnaval no Rio. Em outubro do ano passado, ele já havia escapado de um cerco policial no Itanhangá e, assim como naquela ocasião, estava acompanhado do mesmo policial militar que também foi preso nesta quinta-feira. O PM Diego Darribada Rebello de Lima foi autuado em flagrante por favorecimento pessoal. Integrante da cúpula do jogo do bicho no Rio de Janeiro, Adilsinho é considerado o maior produtor e distribuidor de cigarros falsificados do estado.

Atuação nacional
Apesar de ter iniciado as atividades no Rio, Adilsinho já expandiu sua atuação para cerca de dez estados. Ele explora o mercado ilegal de cigarros em pelo menos seis estados e também atua com bingos e cassinos em outras regiões do país, inclusive no Nordeste.

Ele tinha um mandado de prisão em aberto expedido pela Justiça Federal e também era apontado como mandante de homicídios, sendo procurado pela Justiça. Havia cinco mandados de prisão preventiva em aberto contra ele, quatro por homicídio e um por organização criminosa. Segundo as investigações, ele foi o mandante do assassinato de Fabrício Alves Martins de Oliveira, envolvido com a máfia do cigarro no Rio.

Monitoramento
Os policiais monitoraram a movimentação de Adilsinho nos últimos dois meses. Segundo os investigadores, ele apresentava comportamento atípico e evitava permanecer no mesmo local por muito tempo. O contraventor buscava imóveis alugados para dificultar o rastreamento.

Além da Região dos Lagos, onde foi preso, Adilsinho também se deslocava com frequência para áreas de fronteira, principalmente no Paraná e em Mato Grosso. De acordo com a polícia, essa movimentação não tinha apenas o objetivo de despistar as autoridades, mas também fazia parte de uma estratégia para buscar fornecedores no mercado ilegal de cigarros.

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A prisão foi realizada por policiais federais e civis após levantamento de dados e informações de inteligência no âmbito da Ficco/RJ. Ele foi conduzido à Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro e, em seguida, será encaminhado ao sistema prisional do estado.

A Ficco/RJ, Força Integrada de Combate ao Crime Organizado, é uma força-tarefa composta pela Polícia Federal e Polícia Civil (Sepol/PCERJ), que visa realizar uma atuação conjunta e integrada no enfrentamento às organizações criminosas no estado.

‘Sanguinário’
Fábio Galvão, superintendente da Polícia Federal no Rio, ressaltou que a prisão de Adilsinho foi dificultada pela rede de proteção de que ele dispunha, principalmente com o apoio de policiais. Gálvão afirmou que o contraventor é o mais “sanguinário” entre os chefes do jogo do bicho.

— Foi a terceira tentativa de prisão, que é muito dificultada pela proteção, sobretudo de policiais. E hoje conseguimos prender o mais sanguinário dos capos do jogo do bicho. É resultado de um trabalho que já vínhamos desenvolvendo. Já havíamos fechado três fábricas clandestinas de cigarros, que são uma das principais fontes de renda do bicheiro, além das máquinas de caça-níqueis e da exploração do jogo do bicho — disse ele.

O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, completou afirmando que Adilsinho é responsável por dezenas de homicídios, incluindo rivais e policiais:

— É importante ressaltar que esse marginal é responsável por dezenas de homicídios investigados por nossas delegacias de homicídios da capital, da Baixada Fluminense e da região de Niterói e São Gonçalo. São homicídios de rivais, desafetos, contraventores, integrantes da máfia do cigarro e também de alguns policiais.

O advogado Ricardo Braga, que defende o contraventor, afirmou que o cliente fazia exercícios ao ar livre, por recomendação médica, quando foi preso por policiais civis e federais. Braga disse ainda que Adilsinho confia na Justiça e nega a autoria de todos os crimes investigados pela polícia.

— O senhor Adilson continua confiando na Justiça e vai provar a inocência dele em todos os processos que tramitam. Ele estava correndo dentro da própria residência, fazendo exercício por recomendação médica. Agora, estamos aguardando os trâmites do procedimento da prisão e a audiência de custódia — afirmou o advogado.

A audiência de custódia de Adilsinho deverá ser realizada entre esta quinta-feira e sexta-feira. Ainda não há definição sobre onde o contraventor ficará preso à disposição da Justiça.

Mandados por homícidios
Adilsinho tinha contra si pelo menos cinco mandados de prisão em aberto, sendo quatro deles por homicídios ocorridos em 2022. A primeira é a de Marco Antônio Figueiredo Martins, o Marquinhos Catiri, numa academia de musculação: para a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), a motivação foi a disputa territorial por pontos de jogo de bicho e máquinas caça-níqueis.

Suspeito de comandar uma milícia, Catiri era braço direito de Bernardo Bello, ex-marido de Tamara Garcia, filha do bicheiro Maninho. Na academia, Alex Sandro José da Silva, o Sandrinho, também foi morto.

Além dos dois, outra morte atribuída a Adilsinho é a de Fabrício Alves Martins de Oliveira, que estaria ligada à máfia do cigarro. Fabrício estava num posto de gasolina em Campo Grande quando foi atacado por um grupo de aritadores. Sócio de Fabrício, Fábio Alamar Leite foi morto dois dias depois, quando saía justamente do enterro de Fabrício, no Cemitério de Inhaúma.

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Cassino on-line e venda de cigarros ilegais
Adilsinho também é apontado pela polícia como sendo ligado a um grupo que opera um cassino on-line clandestino que movimentou R$ 130 milhões em três anos. O contraventor controla a fabricação e a venda de cigarros ilegais na Região Metropolitana do Rio e, hoje, já expandiu seus negócios ilegais para outros estados.

Adilsinho nasceu em maio de 1970 em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, numa família de bicheiros que agia naquela região. O pai era sócio da banca Paratodos e logo enriqueceu com a jogatina. Todos se mudaram para o Leblon, bairro nobre na Zona Sul da capital, onde o contraventor passou a infância e a juventude. Na juventude, começou a se envolver nos negócios ilegais que viria a herdar.

Foi na contravenção — baseada no monopólio e na corrupção policial — que Adilsinho buscou inspiração para começar a construir seu império, que conta com pelo menos 34 PMs em sua escolta. A Polícia Federal aponta que, a partir de 2018, ele passou a reinvestir o dinheiro do jogo ilegal na produção e comercialização de cigarros clandestinos, vendidos abaixo do preço mínimo fixado por decreto.

Festa no Copacabana Palace
Em maio de 2021, em plena pandemia de Covid-19, Adilsinho atraiu os holofotes ao fazer uma festa black-tie no hotel Copacabana Palace, um dos mais luxuosos do país. O contraventor recebeu 500 parentes, amigos e artistas para comemorar seu aniversário. Na época, os convites enviados foram em formato de vídeo com a trilha sonora da trilogia “O poderoso chefão”, que narra a saga dos mafiosos da família Corleone.

Pouco mais de dois anos depois, Adilsinho foi procurado em sua cobertura na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste carioca, por policiais civis, que tinham em mãos um mandado de prisão por homicídio. Não havia ninguém em casa.

Operação Libertatis II
A prisão de Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, na manhã desta quinta-feira, em Cabo Frio, é um desdobramento direto da Operação Libertatis II, deflagrada pela Polícia Federal para desmontar uma das maiores estruturas criminosas ligadas ao comércio ilegal de cigarros no Rio de Janeiro.

A fase ostensiva da Operação Libertatis II foi deflagrada em março de 2025. Na ocasião, a Polícia Federal cumpriu 21 mandados de prisão preventiva, 26 mandados de busca e apreensão e 12 medidas cautelares diversas da prisão, incluindo a suspensão das funções de um policial rodoviário federal.

Além das prisões, a Justiça determinou o bloqueio, sequestro e apreensão de bens avaliados em cerca de R$ 350 milhões. Entre os ativos apreendidos estão imóveis, veículos de luxo, criptomoedas, dinheiro em espécie e valores depositados em contas bancárias. Em uma das residências investigadas, em Duque de Caxias, foram encontrados R$ 48 mil em dinheiro.

As ações ocorreram em diversos pontos do Rio e em outros estados, como Espírito Santo, evidenciando o alcance interestadual da organização.

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