Rio de Janeiro

Crescimento acelerado trouxe problemas de segurança e infraestrutura, com avanço de grupos armados e alagamentos

Até outro dia bucólica, região das Vargens é ameaçada por urbanização descontrolada e confrontos de facções

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No topo do outeiro, onde fica a histórica Igreja de Nossa Senhora do Montserrat, de 1732, é possível observar a região. Logo abaixo se vê Vargem Pequena e, ao longe, um bom pedaço de Vargem Grande. A vista é boa, mas o som que chega dos arredores retrata melhor a realidade desses dois bairros da Zona Sudoeste: de um lado, a algazarra melodiosa dos passarinhos e o canto tardio de um galo; de outro, motores, freadas, buzinas e até o ronco de uma motosserra. Essa salada sonora sintetiza a percepção de que as Vargens seguem cada vez mais espremidas entre a vocação para refúgio bucólico que atraiu muita gente até o início da década de 2000 e o crescimento sem freio que trouxe problemas de infraestrutura e segurança.

O sonho de que os bairros seguiriam o destino de paraíso quase rural, a poucos quilômetros do centro da metrópole, parece ter se perdido no vaivém de debates sobre regulamentação que tentavam equilibrar propostas de preservação do meio ambiente e a pressão exercida por projetos de expansão imobiliária. O Plano de Estruturação Urbana (PEU) das Vargens foi engavetado.

No papel, vale o que está no Plano Diretor da cidade e o que dizem os decretos de criação da Área de Proteção Ambiental do Sertão Carioca, de 2021, e do Refúgio de Vida Silvestre (Revis) dos Campos de Sernambetiba, de 2022.

— O crescimento da ocupação deveria estar condicionado à provisão de estrutura e infraestrutura urbana, segundo o Plano Diretor atual, mas isso não está acontecendo — diz o arquiteto Ricardo Bitencourt, morador da região, doutorando pelo Prourb da FAU/UFRJ e bolsista do CNPq. — O padrão antigo de urbanização é o loteamento: uma fazenda ou grande gleba é loteada e entrega à cidade ruas de acesso público aos lotes. Nas Vargens, a tendência que vem da Barra da Tijuca é o grande condomínio. Uma fazenda ou grande gleba é incorporada como enclave privado fechado sem criar estrutura urbana.

O pianista Miguel Archanjo, de 55 anos, mantém uma horta orgânica certificada em Vargem Grande, para onde se mudou, saindo de Copacabana, há quase 25 anos, atraído pelo contato com a natureza e pelo ambiente quase rural da região. Desde então, acompanha com preocupação a transformação das Vargens.

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— Vim pelo contato com a natureza, pelas cachoeiras, ruas de aspecto rural. Queria que meu filho crescesse nesse ambiente, com o pé no chão — diz Archanjo. — Desde então, muita coisa mudou, mas nos últimos cinco anos o crescimento foi geométrico. Principalmente com esses condomínios de alta densidade.

Essa expansão, impulsionada por construções e até empreendimentos clandestinos, traz problemas práticos que vão da carência de transporte adequado e da falta de água e de energia aos alagamentos constantes agravados por aterros sucessivos. Não custa lembrar que o nome Vargem não foi dado à toa. A área tem terrenos de relevo baixo e alagadiços. Houve até a proposta, no início dos anos 2000, de transformar a região na Veneza Carioca com urbanização planejada e canais navegáveis. A ideia não foi adiante.

— Existem vários mapeamentos de áreas frágeis à ocupação. Há cenários de impactos relacionados, por exemplo, à elevação do nível do mar. Esses estudos indicam que as Vargens e áreas mais adiante, no final do Recreio, são muito suscetíveis a alagamentos e a outros problemas que tornam a ocupação urbana inadequada. Uma alternativa seria utilizar essas áreas para atividades agrícolas, como reivindicavam alguns participantes das audiências públicas do Plano Diretor, especialmente pequenos produtores e defensores da produção agroecológica — diz Henrique Barandier, coordenador da área de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam).

Outro ponto sensível é a segurança pública. Ao longo da Estrada dos Bandeirantes, via que corta os bairros, é difícil encontrar alguém disposto a falar sobre o tema. A lei do silêncio impera: quem comenta, pede para não ser identificado. Nos últimos tempos, os bairros entraram de vez na rota da disputa por controle territorial que envolve milícias e facções como o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP).

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O caso da baiana Diely da Silva Maia, assassinada aos 34 anos, em dezembro de 2024, após o carro de aplicativo em que estava entrar por engano na favela da Fontela, é emblemático. Outro episódio ruidoso aconteceu há pouco mais de um mês, quando a portaria de um condomínio foi atacada a tiros: era o recado de uma facção que exige pagamento de taxas.

— Existe um avanço dos grupos armados não apenas nos territórios de favela. O mercado imobiliário se tornou uma das mais importantes bases econômicas para o crime organizado, junto a todos os outros mercados de infraestrutura urbana ligados a essas áreas de nova ocupação que passam a ser explorados por esses grupos, como o fornecimento de água, energia elétrica, gás, transporte, cobrança de taxas de segurança — diz a socióloga Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni-UFF).

Para o arquiteto e urbanista Rogerio Goldfeld Cardeman, os grandes condomínios da região colaboram para a sensação de insegurança.

— O problema é que eles acabam criando grandes áreas cercadas por muros. As pessoas não caminham, os moradores vivem dentro dos condomínios, sem utilizar o espaço público. Quanto menos as pessoas usam a rua, menos vitalidade ela tem e maior pode ser a sensação de insegurança — explica Cardeman, doutor em arquitetura pela Proarq/FAU/UFRJ com uma tese sobre a transformação urbana em Vargem Grande.

Na contramão da cidade, que perdeu habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE, em Vargem Pequena a população cresceu 14,18%: passou de 27.250 (2010) para 31.115 (2022). Em Vargem Grande, o salto foi de 47,18%, passando de 14.039 (2010) para 20.663 (2022).

O combate a construções irregulares cabe à Secretaria municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento (SMDU). De 2024 até a primeira semana deste mês, segundo a pasta, foram embargadas 375 obras e emitidos 2.086 autos de infração na Área de Planejamento 4 (AP4), que, além das Vargens, abrange Barra da Tijuca, Jacarepaguá e Recreio dos Bandeirantes.

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